Do Rio ao Cabo Frio de Bike! Uma viagem em três etapas.

Total: 170 km

Etapa 1: Rio de Janeiro a Maricá

Estava com vontade de fazer esta viagem há bastante tempo. Olhava para o Google Maps, meus dedos sublinhando a costa do Rio, morrendo de vontade de aventura. Depois de experimentar ir a Niterói de barca com a bicicleta, e gozar daquela sensação de ir longe longe, sentir a ventania forte contra a minha pele, que me dá a tesão de viver, decidi: vou fazer a minha viagem, pouco importam os preparativos, vou amanhã. Conversei com uma amiga, geógrafa, que se assustou, “Peraí! Leva um pneu amais! Você deveria conversar com alguém da região, que conhece o trajeto! Meu amigo que mora em Itaipuaçu pode te orientar.” Não comprei o pneu (por nem saber como trocar um pneu de bicicleta) mas falei com o amigo dela, também geógrafo. Foi bom: ele me avisou pra não passar na restinga de Maricá, por ser local de desova (de fato, é).[1] Ainda mais, me convidou para ficar na casa dele! Então, já com meu primeiro destino no mapa, saí do Jardim Botânico para a Praça XV. Da Praça Arrariboia, segui pela orla de Niterói, que é um passeio lindo de bike perdido por cariocas receosos de irem atéééé Niterói.

Saindo do Rio! Após atravessar a merda de ciclovia esburacada de Botafogo, 20 km de orla, uma brisa…

No entanto, quando se chega no final da praia de Charitas, acabou o passeio: tem que atravessar um túnel assustador e depois seguir numa avenida interminável cheia de carros e com uma ciclovia de mentira (na realidade, uma merda de uma calçada esburacada). Dei uma parada para relaxar na praia de Itacoatiara. Dali, para continuar a Itaipuaçu há duas opções, e as duas envolvem uma subida bem íngreme: ou a estrada Gilberto Carvalho (que liga Itacoatiara a Itaipuaçu e que em retrospectiva acho que teria sido a melhor opção), ou o Caminho de Darwin, que é uma trilha de caminhada ou de mountain bike ou moto (a minha bicicleta urbana não aguentou, e subi empurrando ela). Foi perrengue, mas é uma trilha linda na Serra da Tiririca, e ao longo do caminho há placas informativas sobre a viagem do Charles Darwin pela região, feita no início de abril de 1832,[2] e sobre a geologia da região (gnaisse facoidal e diabásio, traços do vulcanismo passado).

Difícil acreditar que Engenho do Mato é do lado de Niterói!

Quando cheguei em Itaipuaçu, meu anfitrião me disse, “Nossa, você não devia ter ido por esse caminho, que lá é rota do tráfico entre Niterói e Maricá! Rola muito assalto lá!”[3]. Que bença de não ter tido a bicicleta e o celular roubados logo no primeiro dia…

Meu anfitrião me convidou para ficar mais uma noite para melhor conhecer Itaipuaçu com calma. Dei uma caminhadan a pedra de Itaocaia de manhã, que tem uma vista espléndida da lagoa de Maricá e da praia de Itaipuaçu. Depois peguei a bike e fui pra praia do recanto, que fica do lado do Morro do Elefante (Costão de Itacoatiara), onde conheci um grupo de jovens que me levaram para curtir o pôr do sol na restinga. Tem uma base militar desativada e uma instalação de esculturas urinais, é um point interessante. Vi o quê parecia ser um óvni, mas meu anfitrião me disse que era um balão meteorológico (e que muitas pessoas acham que veem óvnis ali, pelo fato de fácil avistamento de balões meteorológicos). De qualquer forma, pra quem tem bike urbana e gosta de pedalar rápido, sem interrupções no caminho, recomendo a orla de Itaipuaçu, que aquele asfalto é filé.

Vista de Itaipuaçu do morro de Itaocaia

Coral de areia, Praia do Recanto.

Pôr do sol na restinga.

Instalação de arte na Praia da Restinga.

Etapa 2: Maricá a Saquarema

Essa foi a única parte em que tive que pegar a rodovia Amaral Peixoto, que não é nada agradável! Fiz isso para contornar a restinga, que, como já disse acima, não é pra ir sozinha sem mountain-bike ou sem saber trocar o pneu (na verdade, não é pra ir ali sozinha, ponto final). Apesar deste caminho ser uma baita de um contorno, vale a pena pra conhecer a lagoa de Maricá, que tem uns pedaços de orla bem bonita e cuidadinha.

Itapeba, Lagoa de Maricá.

Logo após atravessar o centro de Maricá, se chega na praia da Barra Nova. Dali, segue-se reto pela Avenida Maísa (não tem orla, meio chato, acaba só vendo casas de praia meio abandonadas) até Ponta Negra. No meio do caminho, pode-se visitar a casa de veraneio do Darcy Ribeiro, projetada pelo Oscar Niemayer. É uma bela vista, com boas energias intelectuais (porém nenhuma exposição).

Casa do Darcy Ribeiro, Maricá

Muitos dizem que Ponta Negra é a melhor praia do local, mas eu não achei nada demais (muita gente). É que ali é o ponto em que acabam as ondas mortíferas de Maricá e começa uma praia normal, onde dá pra entrar na água. Um local lindo nesta área é a Gruta da Sacristia, no caminho a Jaconé, com uma formação rochosa magnífica (tratam-se de ortognaisses originários do continente africano que teriam se colado ao nosso continente há 2 bilhões de anos atrás[4]).

Gruta da Sacristia

Depois, atravessar a praia de Jaconé: uma delícia! Ciclovia a orla inteira, com vista direta para o mar. Essa parte do litoral é especialmente bem conservada, com as rochas da praia (ou beachrocks) de Jaconé, que foram descritas pelo Charles Darwin.[5] São arrecifes, depósitos sedimentares cimentados pela precipitação.[6] Este tipo de pedra é encontrado nos sambaquis da região.[7] Os beachrocks são de importância geológica e histórica, um destaque na bela paisagem da área de Jaconé, e seria muito triste se esta praia for destruída por empreendimentos petroleiros…[8]

A praia de Jaconé, com restinga e arrecifes conservados.

Assim que termina o município de Maricá, acaba a ciclovia! A estrada do final de Jaconé a Saquarema não tem acostamento, e os carros passam rápidos. Estava ficando escuro, e já estava próxima à Saquarema, então parei numa pousada ali. Entrei na água, assisti o pôr do sol e… uma onda bateu no meu celular enquanto tirava uma foto, e entrou água dentro. Por isso, não tenho muitas fotos pela frente. Oh well.

Pôr do sol em Saquarema

Etapa 3: Saquarema a Cabo Frio!

De manhã, dei uma olhada no Sambaqui da Beirada (restos pré-históricos compondo sepultamentos humanos, conchas, ossos de peixe, e artefatos de pedra, datado a 3.300-5.300 AP[9]) por fora da cerca, pois ele só é aberto ao público três dias por semana. Logo depois, parti para Itaúna (a praia do centro de Saquarema). Visitei a Paróquia Nossa Senhora do Nazaré (1660, prédio atual do século XIX), um ponto imperdível da cidade. Depois, como estava sem o GPS do celular, fiz a besteira de ir para a praia de Vilatur, que, apesar de ser até um caminho bonito de bicicleta, passando por uma reserva natural, é uma baita de uma volta porque tem que voltar para a estrada principal para chegar na Estrada da Praia Seca.

A Estrada da Praia Seca écomo a estrada entrando dentro de Saquarema: muito perigosa para uma ciclista solo, sem acostamento e com muito carro. Se tivesse ciclovia, seria perfeito para o cicloturismo, pois é um caminho lindo: passa por dentro do Parque da Costa do Sol, entre dunas brancas e cactos altos. E dali, o resto do caminho é simples e fácil! Segui a Estrada da Praia Seca até Arraial do Cabo, dei um mergulho nas águas turquesas da Prainha, e depois peguei o caminho direto para Cabo Frio (encontrei duas ciclistas de Cabo Frio e as segui). Aí sim, tem acostamento, tem placa avisando para respeitar o ciclista, e, diferentemente do resto de todo o meu trajeto, tem muito ciclista passando! Aparentemente a travessia ida e volta Cabo Frio-Arraial é bem popular para os moradores da região (já Búzios, me disseram, é mais difícil: não tem acostamento e a estrada é assaltada com frequência). Chegando em Cabo Frio, é uma reta só pela ciclovia da orla: Praia das Dunas, Praia do Forte, dois Sambaquis (Sambaquis “Morro dos Índios” e “Duna Boa Vista”)[10], e o Forte São Mateus (1618, construído durante a União Ibérica para defender o litoral de invasões francesas ou holandesas).

A vista da Prainha, entrando em Arraial


Então não precisa ser um grande atleta nem ter equipamento de alta qualidade para conseguir ir de bicicleta do Rio de Janeiro a Cabo Frio. É um caminho com muitos pontos de interesse natural e histórico-cultural.

[1] Isto é, eu descobri, um fato conhecido. “Maricá: Ossada é encontrada na Restinga,” Maricá Info, 13 de novembro de 2021, acessado no https://maricainfo.com/2021/11/13/marica-ossada-e-encontrada-na-restinga.html.

[2] Puramente por acaso, é a mesma época que eu decidi sair de bike neste caminho espontaneamente, 90 anos depois.

[3] “Maricá: Caminhos de Darwin e do tráfico de drogas,” Maricá Info, 14 de maio de 2016, https://maricainfo.com/2016/05/14/marica-caminhos-de-darwin-e-do-trafico-de-drogas.html.

[4] GeoParque Costões e Lagunas do Rio de Janeiro, “Maricá.” https://www.geoparquecostoeselagunas.com/marica/

[5] (Darwin,1832): “9.th Mon [April 1832] [page 5b] started about 1/2 after six. & passed over scorching plains cactuses & other succulent plants (on the decayed & stunted trees beautiful parasitic Orchis with a deliceous smell) glaring hot: therm: in pocket 96˚. — inland brackish lakes with numerous birds. white Egrets — Herons — whites & cormorants. […] lost our way […] Geology: found a fragment on beach of sandstone with numerous Cardiums Mactra. — the whole line of country beach is composed of an extensive [page 6b] flat or a lake. between which & sea are large sand hills. on which the surf roars (by night fine effect) fresh land is gaining.

[6] Mansur,K.L.; Ramos,R.R.C.; Furukawa,G.G. 2012. “Beachrock de Jaconé, RJ – Uma pedra no caminho de Darwin.” In: Winge,M.; Schobbenhaus,C.; Souza,C.R.G.; Fernandes,A.C.S.; Berbert-Born,M.; Sallun filho,W.; Queiroz,E.T.; (Edit.) Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Publicado na Internet em 20/11/2012 no endereço http://sigep.cprm.gov.br/sitio060/sitio060.pdf, 1.

[7] Ibid, 3.

[8] Paula Scarpin, “Pedras de Darwin. Os seixos que pararam um porto.” Piauí, Edição 130, Julho 2017. https://piaui.folha.uol.com.br/materia/pedras-de-darwin/

[9] Sambaquis do Estado do Rio De Janeiro: Musealização como Forma de Preservação, 56.

[10] Entre outros, veja Mota, Manoel Ximenes. Os sítios arqueológico, 2017.https://silo.tips/download/os-sitios-arqueologicos#. Depois descobri que há também dois sambaquis em Arraial do Cabo, um na ilha de Cabo Frio e o outro no sítio Usiminas

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