O inferno burocrático das bibliotecas brasileiras

Acesso somente permitido com documento de identidade (e isso faz o que exatamente, em termos de segurança? nada). Cada vez que pegar um livro, não emprestado, só para ler aí mesmo, tem que assinar um papelzinho (e esse papel, vai aonde? para um depósito de papeizinhos). A burocracia das bibliotecas brasileiras dificulta a leitura. Literalmente: enquanto estava esperando meia-hora para um periódico na Biblioteca Nacional, decidi folhear um dos livros que estava na estante do lado da área de leitura. A atendente se levantou do seu balcão e andou até mim só para dizer: “você não tem o direito de mexer nesses livros”. Porque ela não tinha absolutamente nada melhor para fazer. Tantas vagas de concurso que servem para dar o trabalho para a vida para o jovem graduado em Português: minúcias burocráticas. Outro exemplo da Biblioteca Nacional: não pode tirar foto. Na prática, um monte de gente tira, porque como não pode levar caneta, fica difícil transcrever artigos com lápis. O problema é só se um desses graduados em Português, que agora trabalha como guarda, te vê tirando foto. Aí é só papelada. Tem que assinar um documento de seis itens, com o próprio número de identidade e endereço, prometendo que as fotos são para o acervo pessoal e não para publicação. E tem que assinar uma cópia para si mesmo. Quando eu disse: “Eu não preciso da cópia, então não preciso assinar,” me responderam: “Mas a minha chefe tem que assinar, e ela não vai assinar documento em branco.” Mais um papel para eu jogar fora, valeu. E ainda por cima, tive que preencher um outro papel detalhando cada foto que eu tirasse. Para quê toda essa papelada vai servir? Se eu não usar as imagens, só depósito desnecessário; se eu usar, vão fazer o quê? Eu não tenho dinheiro para eles se quiserem me processar. Tenho tanto desprezo por este sistema que publico aqui uma escandalosa foto de um periódico (aliás, existe a possibilidade de eu ter esse periódico em casa, pois a Biblioteca Nacional não é a detentora de todos os exemplares do Brasil; e se eu tirei a foto do meu próprio periódico? como podem provar que é do exemplar deles?):

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publicando isso, as pessoas aprendem que teve imprensa árabe no Brasil, e que a Casa Baudon na Rua Barão de Itapetininga n. 57 vendia espartilhos. Mais um ponto para conhecimento, menos um ponto para burocracia.

Mais importante que essas irritações supérfluas, é a dificuldade de acesso –por razões burocráticas– das bibliotecas. Para entrar na Biblioteca de Belas Artes do Rio, temos que, de novo, mostrar a carteira de identidade, explicar para um guarda que somos pesquisadores, assinar um papel, preenchendo todos os dados. O Museu da Imagem e do Som, na Lapa, não é um museu, é um arquivo. Então treinaram os guardas a só deixar entrar quem se identificasse como “pesquisador”, e barrar os “visitantes”. O guardo não me entendia quando eu disse que queria “usar o arquivo”. “É visitante ou pesquisadora?”, porque apenas existem essas duas categorias. “Sou uma cidadã que quer usar o arquivo.” Não colou. Tive que dizer “pesquisadora”, se não, não entrava. E as pessoas que se sentem desconfortáveis em se identificar com ocupações que não são delas? A burocracia obriga a mentir.

Eu nem teria que ir a esse tal museu, se eles simplesmente digitalizassem o seu acervo de entrevistas. Quando perguntei porque as entrevistas não estavam na internet, me responderam: “porque aí eu não teria emprego!”. Mentalidade de servidor público. As bibliotecas brasileiras gostam tanto de papelada que existe uma inaptidão tecnológica. Quando fui para a Biblioteca de Belas Artes, depois de ter tido que passar por três seguranças para entrar, os livros não estavam à mostra: tinha que ver no catálogo. Mas o sistema estava em baixa. Não tinha ninguém ali além de mim e a bibliotecária. Será que ela não poderia me mostrar a sala onde os livros estavam guardados? De jeito nenhum. Então, depois de ter mostrado meu documento de identidade, preenchido um formulário, sido guiada por um guarda, tive que sair da biblioteca porque eu não sabia que livros eles tinham.

Bibliotecas não precisam ser assim. Existem formas de saber quem tem qual livro sem gerar tanto papel. As pessoas tiram fotos de livros e o mundo não acaba. Não adianta absolutamente nada pedir a identidade da pessoa para deixá-la entrar num espaço público: isso apenas obstrui o espaço para aqueles que não têm documentos de identidade. E todo o mundo tem o direito de usar esses espaços; não apenas “pesquisadores”. Se mostrar a identidade serve para alguma coisa, deve ser para colocar pessoas como eu na lista dos proibidos para entrar na biblioteca. Mais um papel.

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