Sobre a Masculinidade Tóxica Hipster no Rio de Janeiro: o Caso do Café

cafechic

Saí tomar um café da manhã, não porquê tô com dinheiro sobrando, mas porquê tinha que sair da minha casa ocupada por adolescentes pirralhos chapados (os restantes da social do meu irmão). Infelizmente, o mundo afora também é um espaço dominado por pirralhos, versão adulta. Saí na rua Von Martius em busca de algum lugar onde pudesse ler tranquila durante algumas horas, mas meu boulangerie francês preferido (“La Bicyclette”) não tinha lugar sobrando.  Subi mais a rua até chegar no “Bastarda”, um loja de bicicleta com café, que na verdade é mais um café com tema de loja de bicicleta,  um gimmick para atrair hipsters (meio rip-off do competidor vizinho “La Bicyclette”, if you ask me). Parecia ser simpático. Tudo que é hipster parece ser simpático.

A primeira altercação foi devido ao que pensei fosse esnobismo de café.

—Poderia ter o expresso chai quente em vez de frio por favor?

O garçom barbudo com man-bun, tatuagens e óculos de armação grossa respondeu com um sorriso:

—Tem certeza? Acho que não vai ficar bom assim.

Insisti

—Bem, se for possível esquentar o leite, por favor faça. Eu conheço esse bebida e sempre tomei quente.

Nem pensei muito na conversa. Aí meu sanduíche, que pedi vegetariano, veio com carne, provavelmente porquê quando eu tava pedindo sugestões ao garçom tinha lhe dito que eu gostava de carne. Fui labelled uma carnívora. E cobram 30 reais pelo sanduíche (claro, tem mostarda dijon!).

Não sou muita de me importar, então comi o tal sanduíche. Era o tipo de sanduíche que fica se desfazendo na mão, mas que seria ainda mais complicado usar garfo e faca. Depois, me levantei pra ir ao banheiro. No milissegundo em que olhei no corredor pra ver qual porta era do banheiro e qual da cozinha, um outro homem barbudo e com man-bun (desta vez um cliente) voou na minha frente. Tá, tudo bem, espero. Depois de três minutos esperando em pé (tô enfatizando que todo mundo ali podia ver que estava indo ao banheiro), consegui entrar. Antes de subir as minhas calças, vi o rosto de outro homem barbudo com óculos de armação grossa:

—Iiih, desculpa!

Como eu tinha me levantado instintivamente para tentar fechar a porta, que tinha uma tranca quebrada: bem, vocês conseguem imaginar.

Já ligeiramente irritada com o local, fui me sentar e continuar com a minha leitura, deixando o acaso para trás. De fato, eu estava muito mais preocupada da minha pesquisa sobre tango no Oriente Médio do que acidentes de banheiro. Mas aí senti uma tensão cada vez que um dos garçons de óculos de armação grossa passava. O primeiro, o com man-bun e tatuagens, passou na minha mesa e me disse, sem olhar nos meus olhos, “desculpa”. Sério? Ainda estamos na era de tanto pudor que não se pode nem rir sobre acidentes? Eu sorri para o rosto que não olhava para mim, e disse rindo “tudo bem”, mas ele já tinha fugido da minha mesa. No fundo, pensei: “Foi mesmo ele? Todos são tão iguais!” Foi aí que me dei conta que todos os empregados do café eram homens, quase todos os clientes eram homens. Do meu lado, ouvi a seguinte conversa (verbatim):

—Então ele perguntou a mim: “Você ficaria com uma mulher que tivesse já ficado com mulher”? Aí respondi: “Meu amigo, se não ficasse, não pegaria nenhuma mulher!” Todas as mulheres são assim hoje em dia!

Nhuuugh. Pedi a conta porque detesto má companhia. Outro garçom, este só com óculos de armação grossa, sem barba ou man-bun, veio e, visivelmente nervoso, deixou cair a máquina do cartão na mesa, derramando o saleiro. Pensei por um segundo: “Será que ele ouviu falar do meu flashing no banheiro? Por que outra razão estaria tão constrangido pela minha presença?”. A única outra razão poderia ser o fato de eu ser a única mulher ali. Muito parecido com cafés no Oriente Médio.

Depois de pagar uma nota (lembrando que tinha saído pra comer só pra ficar longe da presença masculino dentro da minha casa), retirei-me do “Bastarda” aliviada. Encontrar um bom café pra trabalhar no Rio de Janeiro já é difícil, e é dez vezes mais difícil quando se é mulher. Os hipsters que elaboram esses espaços hip pensam em atender a clientela padrão: a masculina. O café “Bastarda” me lembra muito essas barbearias chiques que têm surgido por aí. Barbearia com cerveja e tatuagem. Irado, mas só para homens (mulher já tem salão, né?).  Como se uma mulher não quisesse comer um hambúrguer e beber cerveja enquanto tem o cabelo cortado (meu sonho de consumo). O irônico dessas barbearias (para referência, alguns nomes são: “The Boss Men”, “Mr. Hair Club”, “Barão Barbearia”, “Barbearia dos Brabos”) é que quase todas têm imagens de homens com barba. A estética hipster cultiva não uma modernidade agênera (no sentido do gênero parar de importar na vida, ai como isso seria um sonho pra mim), mas sim uma divisão retrô-chique de homens e mulheres. Hipsters adoram pin-up. Homens que demonstram a masculinidade pelo porte de barbas e man-buns, pelo consumo de cervejas artesanais e hambúrgueres (quando não são veganos), pela convivência nesses espaços hipsters masculinos. O quê sobra para a mulher hipster? Sinceramente, além de vestidos retrô desconfortáveis (e mal adaptados para o calor do Rio de Janeiro), eu não sei.

 

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