Sobre essa coisa de performances participativas

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Hoje tive o prazer e o privilégio de participar na performance/ensaio/aula de na piscina do Parque Lage. Privilégio de ter três horas pra dar um relax na piscina, nadar, fazer um yogazinho, gozar do vazio da meditação. Como aqueles tipos artisticamente inclinados que frequentam Parque Lage fariam no seu tempo livre de qualquer forma.

Não debocho desse estilo de vida que me proporciona muito prazer com o tal do mindfulness e o tal do esvaziamento de si. É bacana. O. negócio é que já é normal. Sim: o happening dos anos 60 é basicamente o programa de domingo do hipster yogo-kombucho-lita.

A performance começou com os voluntários reunidos aguardando instruções, que eram dados individualmente. A artista nos disse para socializar uns com os outros enquanto esperávamos a nossa vez. Pulei na piscina. Descobri que não era pra ter feito isso. Fui a minha ‘entrevista’. Me disseram: ‘Faça o quê você quiser. Como se ninguém estivesse olhando, como se ninguém estivesse ali. Não interaja com os outros. Relaxe.’ Okay, voltei a piscina então, dei umas voltas, fiz uns alongamentos, sentei e meditei. Como eu faria em qualquer dia de domingo.

Mas então: uma garota decidiu quebrar esse mindfulness coletivo com um grito. Que bela coisa é o grito! Que belo momento, na a piscina do Parque Lage no declínio do dia, com esses corpos jovens e bonitos fazendo nada ao redor, para gritar. Um grito convida outros gritos. É coisa instintual. Como o som de um tambor: um vai, outros respondem. Gritei também. Ninguém mais gritou. A garota do grito tava pulando na água, salpicando e fazendo círculos. Criou uma energia. A artista não demorou a dizê-la: ‘Calma. Você está muito agitada. Vai atrapalhar os outros. Não é esta a energia que estamos buscando.’

Ou seja: esta tal performance participativa não teve como objetivo um experimento social  de deixar cada indivíduo viajar expressivamente com uma série de regras (o quê eu acharia interessantíssimo). Nem de pôr os indivíduos fora da zona de conforto. Todos lá estavam lá porque são precisamente o tipo de pessoa que fica muito bem sentado olhando pro ar durante horas (já forçar pessoas que não meditam a meditar, trazer esse experimento para uma escola municipal, isto sim seria artisticamente e socialmente interessante). Nós hipster-yogo-kombucho-litas já somos confortavelmente auto-contemplativos. Mas o grito nos tira disso: do apolíneo ou dionisíaco, do interior ao exterior. Mas a artista não gostou. O quê buscava era a imagem de um bando de jovens olhando para o vazio e se alongando durante horas em volta da piscina do Parque Lage. Uma imagem bonita, sei lá, para uma fotografia ou para um clipe de trip-hop. Mas porquê não contratar atores se não queria ver o quê indivíduos realmente fariam na zona de performance ‘participativa’? 

No final, acabei dando umas 20 voltas na piscina. Fiquei com muita endorfina e vontade de correr. Então me aproximei da garota do grito e a gente correu e gritou e correu e gritou. Foi uma linda experiência física e sonora com uma estranha, e sim, uma performance participativa cria a ocasião de experiências fora do dia-dia, que já é tão interior e individualizado. As instruções ‘não interaja com os outros’, pressupondo essa coisa de divisão ‘eu’/’outros’, ‘interior’/’exterior’; putz, com um corpo rodeando outros numa piscina você vê precisamente que isto é impossível, pois estamos todos trocando energias. E quando uma energia estava realmente mexendo com os outros: é hora do pare, é hora de todo mundo continuar no seu canto. Já ficamos muito nos nossos cantos. Proponho uma performance participativa em que as pessoas meditam quando querem meditar, gritam quando querem gritar,  correm quando querem correr. Acabaria terminando com uma orgia. Mais interessante que uma foto de nariz empinado.

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